sábado, 15 de junho de 2024

"PILAR, a menina dos olhos verdes", 2024


 "Menina dos olhos verdes", 2024
Aguarela e caneta

"PILAR"

Pilar era uma menina- mulher. Os cabelos loiros brilhavam com  o sol e a sua pele, muito branca e rosada dava-lhe um toque cristal. Para além dos dedos finos e longilíneos, a sua figura era magra e esbelta. O seu olhar, de um verde eletrizante com mel, fazia qualquer um mergulhar como uma praia quente numa noite de luar.

Havia dias que se expressavam no cansaço do seu rosto, nas ossadas de um corpo tropego. Ainda assim, delicada e leve como uma borboleta deixava um rasto de empatia pelo ar.

Vivia com a tia Lurdes, uma mulher de princípios firmes. A mãe falecera cedo na sua infância. Ainda se recorda das idas ao parque e dos cafonés na nuca antes de adormecer, mas são ideias vagas que ela própria não tem a certeza se são verdade ou pura ilusão. Do seu pai não tem registo, mas era homem do mar, e por isso, foi e não voltou - é o que diz a tia Lurdes, mas Pilar desconfia se alguma vez ela o viu ou conheceu. - "O mar engole os homens, filha... sem tréguas nem descanso."

A tia Lurdes não era uma mulher fácil de levar, autoritária, um pouco gélida e apesar de não parecer, preocupada. A Pilar, nunca lhe faltou nada e ela sabe disso tão bem como sabe estar viva. 

Eram 6 horas, ainda escuras como breu, quando se levantava para ir para a escola todos os dias de que  se lembra. Entrava às 8h mas havia que despertar com os pássaros, dar comida às galinhas, aos coelhos, cozer os ovos para o almoço, fazer a cama impecavelmente, vestir a farda bem engomada e partir para a longa caminhada. A nortada gélida, como a tia Lurdes, indicava-lhe o caminho.

Era o mesmo percurso que fazia todos os dias, com um sorriso pleno, de coração aberto, descia a colina embaraçava-se na floresta que descia e voltava a subir percorria um planalto e lá chegaria à aldeia. A escola era um pequeno edifício junto à igreja e a sua grande janela para o mundo.


sexta-feira, 14 de junho de 2024

'Por uns segundos...', 2016


 "Por uns segundos...", 2016

Grafite

"Eu e tu", 2015 | O tempo e o pensamento .:. Brahma & Jivabhavana .:.



 "Eu e tu", diários 2015
Desenho de Contorno 

O tempo e o pensamento .:. Brahma & Jivabhavana .:.

Estórias de viajantes .:. Índia, 2019

O tempo não se rege por um relógio de parede, nem sequer se atrasa ou adianta, de nada depende e não espera por ninguém. Esse tempo é simplesmente uma projeção da nossa mente, transformando o corpo e a matéria sem pedir licença, apegando-nos a um passado e a um futuro inexistentes. E qualquer pensamento, independente do seu conteúdo ser passado ou futuro é um movimento do presente, fluindo como uma respiração que te resigna a cada aqui.

 Num momento tudo passa devagar, noutro passa a correr transpirando ciclicamente na minha mente como que uma pressa de viver. Porque viver é isso mesmo, entre inícios e fins usufruir de cada momento como uma oferenda que o desconhecido nos dá.

 Ontem cheguei, amanhã vou partir. 

Agora respiro fundo e enterro os pés no chão. Vou aproveitar o último pôr do sol como se fosse o primeiro.
 

Sentinela | 2016

 


"Sentinela", 2016

Aguarelas e colagem



"De soslaio ", 2006


" de soslaio", 2006



 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

"Re-trato", 2012


 Re-trato, 2012
Grafite
29,5 x 21 cm

***

“O falcão matizado desce velozmente e acusa-me, queixa-se da minha tagarelice e ociosidade.

Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,
Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

O último fulgor do dia permanece em mim,
Arremessa a minha imagem depois de todas, real como elas, sobre os desertos, sobre as sombras,
Insinua- me no vapor e nas trevas.

Parto como o ar, sacudo os meus cabelos brancos sob o sol que foge,
Espalho a minha carne em remoinhos, espalho-a em desenhadas rendas.

Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura- me noutro,
Algures estarei à tua espera.

“Canto de mim mesmo”, 1855
Walt Whitman

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

"Adeus", 2008 - "Entre partidas e chegadas" || "Contratempos", 2019

2008

"Adeus", 2008 
 Grafite - 42x 59,3 cm


***

ENTRE PARTIDAS E CHEGADAS

Partir nunca foi fácil. Quando partimos de um lugar, fica sempre uma sensação de que deixamos algo para trás. Na verdade, essa é a sensação de quem leva tudo consigo e se possível um pouquinho mais. Mas partir faz tão bem quanto chegar e chegar pode ser tão mais difícil quanto ir.
 A viagem começa na mente, no desejo e na expectativa do desejo. Na verdade, aquilo que planeamos nunca deixa de ser uma teoria até que seja posta em prática e verificável através de todos os sentidos do nosso corpo. A viagem nunca é uma linha recta, nunca é um plano, mas aquilo que nos surpreende nesse caminho traçado.
 Planear a Índia é fácil, chegar nem sempre o é.


***

CONTRATEMPOS


 Chegar não tem sido fácil. Por entre os contratempos do mundo, cumprimos horários e julgamos (in)certezas. Esperamos sempre que nada tropece pelo caminho, que siga tudo assim, bem direitinho como uma fila indiana. Mas eu descobri, que a filas indianas, não são direitinhas, alinhadas ou ordenadas. São movimentos celulares compostos, semelhantes a camadas de pele que se formam e deformam como fractais.

  Tanto sei o que me fez querer ir,  como aquilo que me faz quer chegar. E a expectativa borbulha a cada etapa que concretizo. Ainda assim, não é a minha vontade que vai levar avante o mundo, nem sequer um pensamento positivo mudará o rumo alheio. Resta-me aguardar, aceitar e apreciar que esta viagem não tem um fim definido e que as ondas não escolhem quando chegam à praia.

Rahel Osório
"Um poema indiano - Estórias de viajantes", Índia 2019

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

"Polaroid", 2008 - "Chegar não tem sido fácil"

2008

"Polaroid", 2008

Ténica mista, 42 x 51 cm


***

Chegar não tem sido fácil

Chegar não tem sido fácil. Por entre os contratempos do mundo, cumprimos horários e julgamos (in)certezas. Esperamos sempre que nada tropece pelo caminho, que siga tudo assim, bem direitinho como uma fila indiana. Mas eu descobri, que a filas indianas, não são direitinhas, alinhadas ou ordenadas. São movimentos celulares compostos, semelhantes a camadas de pele que se formam e deformam como fractais.


  Tanto sei o que me fez querer ir,  como aquilo que me faz quer chegar. E a expetativa borbulha a cada etapa que concretizo. Ainda assim, não é a minha vontade que vai levar avante o mundo, nem sequer um pensamento positivo mudará o rumo alheio. Resta-me aguardar, aceitar e apreciar que esta viagem não tem um fim definido e que as ondas não escolhem quando chegam à praia.


Enfim, as viagens são para isso mesmo.
 Elas não são um movimento puramente físico ou geográfico e nunca têm só uma direção. Aliás, são um exercício cruamente atlético e emocional. A rotina devora-nos. Franqueando a mente, ela deixa-nos imunes e é preciso fugir, portanto! - enfrentar o desconhecido porque só aí, quando nos tiram o chão é que nos damos conta que sabemos voar.

 E voltar tem mais mil e outras descobertas. Tudo o que estava, mas já não ao nosso alcance, por uma cegueira desgarrada entre os minutos as horas e as certezas dos dias, ganha luz e sabor. É como se saindo do lugar, te ensinasses novamente a ajustar - como cada célula à sua função.

 E porque também, não são os lugares! Nenhum lugar é perfeito para todos os momentos e expetivas.
 Mas a Índia revelou-se e foi-me revelando. E assim, porque encontrei lá uma parte de mim, ela voltará a ser um novo regresso!

Estórias de viajantes .:. Índia, 2019