“Homem barba”, 2024
Técnica mista | 42 x 29,7cm
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Uma figura longilínea, alta e possante ainda que enrugada e velha, arrastando um manto de barbas e um cajado, era o Homem Barba que habitualmente cruzava o bairro das Quintinhas de Santo António, procurando uma sombra melhor. A estranha figura era um mistério que deambulava metodicamente pelas horas.
Fazia uma semana se tanto, que ali chegara e não passara despercebido.
Os miúdos logo assim o batizaram, sem ingenuidade nenhuma e até alguns o confrontaram com pedras e palavrões. Outros só tinham medo e desviavam a sua rota cochichando as histórias que se faziam ouvir por entre os moradores.
Não há nada melhor que um mistério para aguçar a imaginação.
Neste ponto, o Homem Barba já tinha sido tudo: um vilão assassino saído da prisão e em liberdade condicional; um viúvo deprimido que havia perdido a sua família num acidente de viação, sendo o único sobrevivente da fatalidade; um bailarino famoso que por uma lesão ficara restringido daquilo que mais gostava de fazer e afundara-se na pobreza e entre estas infundas possibilidades, muitas mais ressoavam como uma onda vibratória que não se consegue estancar.
Entre tudo, o senhor era sóbrio e inofensivo e apesar da densidade emocional que carregava, ele era amistoso nos gestos e nas palavras, mas nem todos davam conta disso.
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