UM POEMA INDIANO, Índia 2019


                                                                                            foto by Rahel O.

 

UM POEMA INDIANO

Índia, 2019


Entre partidas e chegadas


 Partir nunca foi fácil. Quando partimos de um lugar, fica sempre uma sensação de que deixamos algo para trás. Na verdade, essa é a sensação de quem leva tudo consigo e se possível um pouquinho mais. Mas partir faz tão bem quanto chegar e chegar pode ser tão mais difícil quanto ir.
 A viagem começa na mente, no desejo e na expectativa do desejo. Na verdade, aquilo que planeamos nunca deixa de ser uma teoria até que seja posta em prática e verificável através de todos os sentidos do nosso corpo. A viagem nunca é uma linha recta, nunca é um plano, mas aquilo que nos surpreende nesse caminho traçado.
 Planear a Índia é fácil, chegar nem sempre o é.
 Assim foi, por entre voos adiados e malas perdidas, pelas turbulentas autoestradas indianas - são 300kms que se estendem por 9h de buzinadelas num trânsito que é disparate! - chegámos enfim, a Pushkar.

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Pushkar e o lago sagrado


 Pushkar é uma cidade tranquila à beira do deserto do Rajastão. É conhecida pelo seu lago, que é demais considerado sagrado - julgo que por esta mesma razão - ela é um verdadeiro oásis.
Como qualquer parte da Índia é cheia de cores e cheia de odores, muito comércio e uma azáfama típica de quem tem bom negócio. tudo enche o olho e o coração por aqui.


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Agora que estás com os pés na terra...


 ...tem cuidado onde pisas.
 As ruas cruzam-se embaraçadas. Ruas, ruelas e becos despertam-nos curiosidade e é fácil perder chão firme. Na Índia tudo é um work in progress, porque tudo parece que está em constante construção ou desconstrução, nunca se sabe bem. Entre Deli, Jaipur e Pushkar encontramos coisas lindas no meio de uma total desarrumação. Mas o essencial funciona...  há tecnologia e "man"ologia suficiente para nada parar.
 O trânsito melhora nesta terra de oásis que é Pushkar, uma vez que é interdito a carros e carrinhas. Só as motas se permitem no centro e ao que parece todos têm uma. Não há propriamente estradas ou sinalização, se fôr estreito o suficiente para passar, passa. Também não parece haver idade mínima para a condução, desde que se alcance a buzina, tudo bem sir! "Horn please"- está na traseira de qualquer veículo e é uma exigência para definir a segurança e o bem comum.

 Oficialmente abstémia, é uma de duas cidades de alimentação puramente vegetariana, onde não se fuma ou bebe alcool. Aqui, vegetariano bebe leite mas não come ovos, o que tem o seu sentido. A vaca considerada sagrada é a lembrança de que todos os animais e seres com alma o são, pelo que não servem de alimento. Há portanto, uma certa disposição para partilhar o espaço com todos eles, vacas, macacos, porcos, camelos, gansos, galinhas participam a vida ativa e são respeitados.
 Há também um compromisso com a alimentação sattvica, a oferta é excelente e variada em cada esquina.

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Anica e Anita


Conheci Anica nos primeiros passos do dia em que cheguei. 
Por entre 'money exchanges' e a recomendada loja de música Ravi Sharma, produtor reconhecido de Pushkar, também ele o fim da linhagem viva que cuida de um templo dedicado a Vishnu, por 400 anos na mesma família à beira deste lago sagrado.

"Come, do you want henna? i'll do very beautiful, come..." 
- Wait, not now - respondi apreensiva - later...
- Come, very fast, very beautiful... come and sit there with me, come...

Como se o tempo parasse, sentei-me com Anica à entrada do Ghat (portão). 
São mulheres do deserto, vivem nas tendas que rodeiam a cidade. E com poucas palavras se faz uma conversa: 
- "I live in the desert, in a tend, this is Anita, my child."
- "Have children? How many? Where do you live? You come and meet my family, i'll do naan and good food, you come to dinner.

Na comunidade, pouco se veêm as mulheres nos cargos do comércio, limpeza, cozinha e quando estão, estão no back up' ajudando os seus maridos no negócio. 

Mas, Anica não, "she's a local”, have no job for her".

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Rhesus .:. os guardiões das cidades


Macacos adoram e adornam as cidades. 
Sem dúvida, eles são os guardiões das terras. Leais aos seus bandos de famílias muito bem constituídas, consegue prever-se neles uma humanidade tremenda. Por toda a cidade - nos telhados, muros, varandins,... - exactamente por onde nem os homens chegam - lá estão eles contemplando a vida quotidiana, numa liberdade intrínseca e de invejar.



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Templo Sikh .:. Gurudwara Singh Sabha .:. Pushkar, Rajastão


 A natureza monumental do edifício é estonteante.
Talhando o céu de mármore branco, o templo ergue-se, ao mesmo tempo, delicado e robusto. Ali, toda a azáfama da cidade se perde. O seu próprio silêncio é capaz de abafar qualquer ruído que chegue tanto de fora como de dentro.

 Ao passar os portões há uma frescura e tranquilidade que se eleva a cada degrau da escadaria. Entramos descalços, cobrindo a cabeça e os ombros, rodeamos o altar imponente e vistoso. Ao ouvir as escrituras a mente e coração serenam.
Só assim, se compreende uma ordem nesta eternidade.

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Adeus Rajastão!


  Assim se completa uma semana cheia em Pushkar.
  As terras do Rajastão são a morada dos Marajás e das gentes do deserto. Por entre passeios de camelo, recitais de música clássica, festas de casamento,... a cereja no topo do bolo: O Festival Maha Shiva Ratri, que sempre acontece nesta altura como o nosso Carnaval.
 Quando se festeja, exaltam-se todas as emoções. Todos os elementos e forças da natureza são invocadas para um propósito maior. O simbolismo é necessário para a mente acompanhar e se envolver nesse processo que só referencia o Ilimitado. Qualquer altar é só e isso mesmo – o todo em ponto pequeno para que nos possamos conectar, assimilar e compreender aspectos dessa ordem de que fazemos parte.


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.:. Ainda em Pushkar .:. histórias dos Puranas com Ravi Sharma


 Existem 3 deuses principais no hinduísmo Brahma, Vishnu e Shiva. Brahma é o criador, Vishnu o preservador e Shiva o transformador. 
Ao contrário do que se julga, Shiva não é o destruidor no sentido negativo da palavra, mas aquele que nos permite alcançar Moksha, a libertação.

 Shiva e Vishnu tem muitos lugares sagrados de culto, mas Brahma só tem Pushkar. 
Conta-se que Brahma quis ter um lugar para si e então criou uma flor de lótus e lançou-a ao espaço. A flor caiu em Pushkar e saltou mais duas vezes. Ao cair, a flor abriu a terra e a água surgiu automaticamente nesses lugares. Então ele decidiu fazer um ritual do fogo, uma cerimónia sagrada.

Assim como nas famílias cada um tem o seu papel, Brahma chamou o seu filho Narada para fazer o ritual. Narada, por sua vez, disse à sua mãe Savitri  para se preparar para a cerimónia, mas ela atrasou-se muito. Uma vez que há uma janela de tempo auspiciosa para começar o ritual, Brahma dirigiu-se a Indra, o rei dos deuses e este foi procurar uma mulher para  poder iniciar o ritual, mas esta tinha que ser uma deusa.

  Para os hindus, a vaca é sagrada - nem sequer é considerada um animal- e por isso é chamada de mãe. Esta menina que Indra encontrou foi então engolida e passou por dentro da  vaca três vezes, sendo assim purificada dos seus karmas. Havendo passado três vezes pela vaca foi chamada de Gayatri. O prefixo Gau/gai significa vaca e ya-tri - por ter passado as três vezes por dentro da mesma. Assim a menina se tornou uma deusa.

Este foi o lugar onde o Gayatri mantra foi recitado pela primeira vez no universo - em Pushkar.
Este mantra de um modo geral deve ser manásico, isto é recitado mentalmente.

Savitri a primeira mulher de Brahma, mãe de Narada, finalmente chegou e ficou furiosa quando viu que Gayatri assumiu o seu lugar e amaldiçoou o seu marido e todos os deuses. A Brahma disse que  só em Pushkar ele poderia ser adorado. Também amaldiçoou Vishnu e disse que ele nasceria como Sita e Rama (suas sagas são contadas no épico Ramayana de Valmiki). Depois disso, Savitri subiu montanha e desapareceu.

  O lugar ficou consagrado, e assim qualquer pessoa que aqui chegasse libertar-se-ia dos seus karmas. Mas, os deuses não acharam bem porque assim, as pessoas não se esforçavam por melhorar a sua conduta. Há então, um período no mês de kartika (entre Novembro e Dezembro) que se abre aquela janela para a libertação, mas tem de se cantar um mantra específico para invocar a essa presença de Pushkar. 

 Sem dúvida, que aqui se sente uma energia diferente.

Há muita coisa que não está bem, mas como diz Ravi Sharma é como dipak, a lamparina:

 Dá luz em todas as direcções menos para baixo, valorizando tudo o que vale a pena,
que é muito mais do que aquilo que está na escuridão.

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Welcome to Rishikesh!


Da pequena janela do avião avista-se a cidade de Dehradun. 
São todas as cores num geometria impressionante que se estende no sopé de uma densa floresta negra. Agora, encontrar este tipo de organização em cores de sorvete, é no mínimo surpreendente.

Assim que chegámos com os pés ao chão fizémo-nos à estrada. 
'Next stop: Rishikesh! 
Arsha Vidya Pitham - Swami Dayananda Ashram.

Debruçando-se nas margens do rio Ganges, o Ashram inspira uma serenidade imaterial. Esta é a morada muitos Swamis e alunos que se dedicam ao estudo de Vedanta e é onde vamos ficar pelos próximos dez dias.

Aquele rio nada foi do que supus outrora, e o primeiro final de tarde foi simplesmente divinal. 
Há uma neblina e uma frescura que chega das montanhas. Aqui, onde já se emolduram os Himalayas, num corpo de terra firme que se impõe com respeito e abraça o rio de correntes fortes e àguas claras,

Sri Ganga é a mãe e é o coração da cidade.

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Śrī Rāmagītā e o estudo dos Vedas


  Se quisermos definir o estudo de Vedanta em três palavras, o mahavakyam: 

“Tat tvam asi” –  “Tu és isso - o ilimitado, Brahman!”

  Mas esta grande afirmação acerca da nossa própria natureza pouco nos basta sem uma boa explicação e sem a devida preparação para acolher a resposta. Somente através do estudo coerente e com um professor digno e apto, poderemos vislumbrar esse conhecimento e isso é jñana yoga (o yoga do conhecimento).

  Não há qualquer acção - meditação, prática ou ritual - neste mundo que nos traga esse entendimento. Assim os sastras nos falam, como um manual de instruções  da humanidade, que o conhecimento dessa verdade, só vem através de uma abordagem intelectual que anule o erro cognitivo e de concepção da nossa própria natureza. 

  O Karma yoga é então, uma preparação necessária, que nos guia através do dharma (ética) para que possamos ganhar maturidade na nossa relação com o mundo relativo, que está na fonte das nossas maiores alegrias e sofrimentos. O Hatha Yoga é a disciplina que nos ajuda no autoconhecimento, proporcionando-nos diariamente o espaço de reflexão necessário e o dharma para com o nosso corpo/mente. Ele ajudar-nos-á  a recordar que a nossa verdadeira natureza é efectivamente plena e que qualquer aflição é apenas adicional e produto da nossa própria ignorância.

   Aqui fica um excerto de notas do professor Pedro Kupfer, um apontamento sobre o nosso estudo ao longo destes dias:

“ ‘Gītā significa canção. Rāmagītā é a “Canção de Rāma”. Rāma é um avatāra, a sétima das dez encarnações do deus Viṣṇu, que se manifesta na terra quando o dharma, a Lei Universal, está em perigo. O propósito das manifestações desse deus é educar a Humanidade e lembrar daquilo que foi esquecido para restaurar a harmonia e a justiça, na sociedade e no mundo. Este texto é um diálogo entre Rāma e seu irmão Lakṣmaṇa, que aparece no quinto capítulo do Uttarakhanda, que é parte integrante do Adhyātma Rāmāyāṇa que, por sua vez compõe a Brahmāṇḍa Purāṇa. (...) Lakṣmaṇa, irmão mais novo e fiel companheiro de Rāma, pergunta-lhe como atravessar o oceano da ignorância e deixar o sofrimento para trás. A instrução de Rāma ao seu jovem irmão é esta Rāmagītā.

Este ensinamento, que mostra que o indivíduo (jīvātma) é idêntico ao Ilimitado (Brahman), deve ser compreendido se quisermos uma vida tranquila, apesar as dificuldades inerentes a qualquer existência humana. A não-dualidade é um facto, apesar da aparente distinção sujeito-objeto, já que essa distinção não contradiz a não-dualidade.  Este é o conhecimento do Veda. Está ao longo dos mantras do Ṛg Veda e, especialmente, no fim dele, condensado nas Upaniṣads.

Na tradição espiritual da Índia, sempre que houver ensinamento sobre autoconhecimento, ele será transmitido na forma de um diálogo, como é este caso. Nunca encontraremos, nessa vasta literatura sagrada, um texto em que se ensine algo sobre espiritualidade de forma narrativa. O conhecimento que liberta da ignorância sempre aparece em forma de diálogos, entre dois irmãos, como é o caso da Rāmagītā, ou entre professor e estudante, marido e mulher ou pai e filho, como em algumas Upaniṣads e outros śastras.”

Hariḥ Oṁ!

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A portuguesa


 Nem sempre falar a mesma língua significa que nos entendamos com facilidade. As próprias palavras tornam-se obstáculos fonéticos e as expressões um mundo infinito de possibilidades. Normalmente um sorriso basta para aconchegar o desconhecido, mas noutro momento pode ser somente um poço sem fundo.
  Do Brasil para Portugal 'tem muita coisa que nos une e 'tem um outro oceano de coisas que nos separa. Na rigidez do meu português, tudo fica muito sem graça e acima de tudo pouco entendível para o grupo que acompanho. Eu sou a portuguesa!

Amaciar as palavras, até que a grossura de um "você" seja ilibada, contrariamente ao que pensei, não foi difícil. Até porque:
"Camarão que dorme, a corrente leva"

... e assim estar atentos e saber fluir com a correnteza é essencial.

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O tempo e o pensamento .:. Brahma & Jivabhavana


  O tempo não se rege por um relógio de parede, nem sequer se atrasa ou adianta, de nada depende e não espera por ninguém. Esse tempo é simplesmente uma projeção da nossa mente, transformando o corpo e a matéria sem pedir licença, apegando-nos a um passado e a um futuro inexistentes. E qualquer pensamento, independente do seu conteúdo ser passado ou futuro é um movimento do presente, fluindo como uma respiração que te resigna a cada aqui.

 Num momento tudo passa devagar, noutro passa a correr transpirando ciclicamente na minha mente como que uma pressa de viver. Porque viver é isso mesmo, entre inícios e fins usufruir de cada momento como uma oferenda que o desconhecido nos dá.

 Ontem cheguei amanhã vou partir, mas agora respiro fundo e enterro os pés no chão. Vou aproveitar o último pôr do sol como se fosse o primeiro.

Om namah shivaya!

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O regresso...


 Enfim, as viagens são para isso mesmo.
 Elas não são um movimento puramente físico ou geográfico e nunca têm só uma direcção. Aliás, são um exercício cruamente atlético e emocional. A rotina devora-nos. Franqueando a mente, ela deixa-nos imunes e é preciso fugir, portanto! - enfrentar o desconhecido porque só aí, quando nos tiram o chão é que nos damos conta que sabemos voar.

 E voltar tem mais mil e outras descobertas. Tudo o que estava, mas já não ao nosso alcance, por uma cegueira desgarrada entre os minutos as horas e as certezas dos dias, ganha luz e sabor. É como se saindo do lugar, te ensinasses novamente a ajustar - como cada célula à sua função.

 E porque também, não são os lugares! Nenhum lugar é perfeito para todos os momentos e expectivas.
 Mas a Índia revelou-se e foi-me revelando. E assim, porque encontrei lá uma parte de mim, ela voltará a ser um novo regresso!

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Deli, a última estadia


    A última estadia foi em Deli. Percorri a cidade de carro, por umas horas salvas entre voos que me resgatam para casa.  Surpreendentemente, como muitas coisas nestas últimas semanas, o meu motorista era uma mulher. Não é comum, - pensei ... mas nada é comum por aqui!?

    Já cá havia estado faz algum tempo, e dei-me conta que Nova Deli foi como uma menina que se tornou mulher. Por dentro da cidade, largas avenidas e viadutos tentam ganhar espaço arterizando a floresta tropical que ali outrora dominava. Há papoilas muito vermelhas e flores de todas as cores ladeando as estradas e os edifícios são monumentais. Há muito verde, muito espaço, muita gente e muito trânsito mas também, há uma característica maturidade capital.

   O trânsito das 14 horas não deixa de ser infernal mas, ao mesmo tempo divertido. Deve ser assustador ter um carro novo por estas bandas! Com certeza que aqui, um certo magnetismo que faz com que as coisas não se toquem pois inacreditavelmente, tudo flui. A inexpressividade dos condutores ao volante perante este caos, é incompreensível para qualquer um de nós. Eles investem na buzina mais irritante e são compreensivos com a maior das contraordenações – por exemplo andar em sentido contrário é muito comum; como o chegar mais à direita para virar à esquerda cortando as marchas alheias, o excesso de bagagem, a falta de capacetes e segurança infantil e por aí em diante... Pelo que ouvi dizer - mas não fui verificar -, ficam bem atrás no rating de acidentes diários em comparação com outros países do mundo. E olhem, que possibilidades que não faltam!

   São 7 horas da manhã e a vida começa tranquilamente. A caminho do aeroporto rendo-me a cada esquina e evito olhar para trás. Vou levantar vôo e ultrapassar esta neblina constante que cobre a cidade. Curiosamente, esse é o  fumo das queimadas agrícolas, deixando uma atmosfera poluída e de má qualidade - são as culturalidades difíceis de irradicar... No entanto, apesar de toda esta fumaça a encobrir o sol, a terra é tão fértil que não se queixa –  ela nunca descansa e está sempre pronta para se deixar semear.

  Vou de itinerário tão bem delineado que chegar parece fácil... não será de estranhar?

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Contratempos


 Chegar não tem sido fácil. Por entre os contratempos do mundo, cumprimos horários e julgamos (in)certezas. Esperamos sempre que nada tropece pelo caminho, que siga tudo assim, bem direitinho como uma fila indiana. Mas eu descobri, que a filas indianas, não são direitinhas, alinhadas ou ordenadas. São movimentos celulares compostos, semelhantes a camadas de pele que se formam e deformam como fractais.

  Tanto sei o que me fez querer ir,  como aquilo que me faz quer chegar. E a expectativa borbulha a cada etapa que concretizo. Ainda assim, não é a minha vontade que vai levar avante o mundo, nem sequer um pensamento positivo mudará o rumo alheio. Resta-me aguardar, aceitar e apreciar que esta viagem não tem um fim definido e que as ondas não escolhem quando chegam à praia.

FIM
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