sexta-feira, 14 de junho de 2024

Sentinela | 2016

 


"Sentinela", 2016

Aguarelas e colagem




Levantou-se bem cedo. O primeiro raio de sol queimou-lhe as pálpebras e cerrou-as ainda mais. À beira da cama, o peso nos ombros não o deixava erguer. As manhãs eram habitualmente difíceis, mais bem dizendo: ásperas.

Hoje, acordava da mesma maneira que ontem; vestido, descalço e desgrenhado. Na maior parte das noites mantinha-se acordado, a trabalhar. Gostava de trabalhar com as mãos e agora doíam-lhe. Olhava para o espelho : MAS QUEM És Tu? - em grandes letras desenhadas num baton rouge carmim.

Era uma retórica lançada há já algumas semanas e sem resposta. As ideias iam-se desfazendo como nuvens num céu ventoso, desmoronavam como a areia à beira mar. Lidava com o seu reflexo sem graça e sem autonomia, como uma sombra que se nega a partir com o  dia.
Todas as manhãs olhava o espelho. Todas as noites trabalhava sobre ele.

No quarto ao lado do seu vivia Pilar, a vizinha que todas as noites acordava e batia com os punhos na parede - ou a música estava muito alta ou já era tarde demais para passear pelo quarto com os seus tacões de madeira - umas socas antigas que nunca largava.

A última noite fora agitada. Vicente trabalhara incansavelmente pela noite adentro nos seus retratos e autorretratos frente àquele espelho, a frase vibrava na sua cabeça, nas suas oculares e cortava a folha de papel. Chegou ao ponto de a rasgar com tanta audácia que o seu caixote de lixo já se estendia pelo quarto. De madrugada o seu reflexo ali estava, pronto para ser assinado e guardado entre todos os outros que havia feito em frente a esse mesmo espelho, Todos eles diferentes, todos eles idênticos. Não havia resposta que o satisfizesse, não havia traço que o justificasse. 


Pilar batia severamente à sua porta. - Diz o que queres e vai-te embora bem rápido - responde abrindo a porta com  uma cara deslavada e séria. Pilar parecia uma borboleta colorida ao entrar de rompante  e com as suas mãos pálidas e frias apagou-lhe as palavras deixando uma nuvem rosa esbatida.
- Tu és isto, ainda não percebeste? Tudo aquilo que és não se vê, tampouco se reflete- e saiu exalando forte. 

Vicente vibrou:
- … uma mancha esbatida entre dois reflexos.
Pegou no seu último retrato e a pastel seco esbateu uma mancha rosa pelos seus olhos. Em baixo escreveu: 

“estive cego, agora vejo”

O dia até que começara bem. Calçou os seu grandes tacões, entre a mancha passou as mãos pelo cabelo e saiu para um café.
...



Sem comentários:

Enviar um comentário