"Menina dos olhos verdes", 2024
Aguarela e caneta
"PILAR"
Pilar era uma menina- mulher. Os cabelos loiros brilhavam com o sol e a sua pele, muito branca e rosada dava-lhe um toque cristal. Para além dos dedos finos e longilíneos, a sua figura era magra e esbelta. O seu olhar, de um verde eletrizante com mel, fazia qualquer um mergulhar como uma praia quente numa noite de luar.
Havia dias que se expressavam no cansaço do seu rosto, nas ossadas de um corpo tropego. Ainda assim, delicada e leve como uma borboleta deixava um rasto de empatia pelo ar.
Vivia com a tia Lurdes, uma mulher de princípios firmes. A mãe falecera cedo na sua infância. Ainda se recorda das idas ao parque e dos cafonés na nuca antes de adormecer, mas são ideias vagas que ela própria não tem a certeza se são verdade ou pura ilusão. Do seu pai não tem registo, mas era homem do mar, e por isso, foi e não voltou - é o que diz a tia Lurdes, mas Pilar desconfia se alguma vez ela o viu ou conheceu. - "O mar engole os homens, filha... sem tréguas nem descanso."
A tia Lurdes não era uma mulher fácil de levar, autoritária, um pouco gélida e apesar de não parecer, preocupada. A Pilar, nunca lhe faltou nada e ela sabe disso tão bem como sabe estar viva.
Eram 6 horas, ainda escuras como breu, quando se levantava para ir para a escola todos os dias de que se lembra. Entrava às 8h mas havia que despertar com os pássaros, dar comida às galinhas, aos coelhos, cozer os ovos para o almoço, fazer a cama impecavelmente, vestir a farda bem engomada e partir para a longa caminhada. A nortada gélida, como a tia Lurdes, indicava-lhe o caminho.
Era o mesmo percurso que fazia todos os dias, com um sorriso pleno, de coração aberto, descia a colina embaraçava-se na floresta que descia e voltava a subir percorria um planalto e lá chegaria à aldeia. A escola era um pequeno edifício junto à igreja e a sua grande janela para o mundo.






