terça-feira, 25 de novembro de 2025

terça-feira, 23 de julho de 2024

"Homem Barba", 2024


“Homem barba”, 2024
Técnica mista | 42 x 29,7cm


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Uma figura longilínea, alta e possante ainda que enrugada e velha, arrastando um manto de barbas e um cajado, era o Homem Barba que habitualmente cruzava o bairro das Quintinhas de Santo António, procurando uma sombra melhor. A estranha figura era um mistério que deambulava metodicamente pelas horas.

Fazia uma semana se tanto, que ali chegara e não passara despercebido.

Os miúdos logo assim o batizaram, sem ingenuidade nenhuma e até alguns  o confrontaram com pedras e palavrões. Outros só tinham medo e desviavam a sua rota cochichando as histórias que se faziam ouvir por entre os moradores. 

Não há nada melhor que um mistério para aguçar a imaginação.
Neste ponto, o Homem Barba já tinha sido tudo: um vilão assassino saído da prisão e em liberdade condicional; um viúvo deprimido que havia perdido a sua família num acidente de viação, sendo o único sobrevivente da fatalidade; um bailarino famoso que por uma lesão ficara restringido daquilo que mais gostava de fazer e afundara-se na pobreza e entre estas infundas possibilidades, muitas mais ressoavam como uma onda vibratória que não se consegue estancar.

Entre tudo, o senhor era sóbrio e inofensivo e apesar da densidade emocional que carregava, ele era amistoso nos gestos e nas palavras, mas nem todos davam conta disso.


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“Sem título e sem nome”, 2024


“Sem título e sem nome", 2024
Técnica mista | 42 x 29,7cm

 

sábado, 15 de junho de 2024

"PILAR, a menina dos olhos verdes", 2024


 "Menina dos olhos verdes", 2024
Aguarela e caneta

"PILAR"

Pilar era uma menina- mulher. Os cabelos loiros brilhavam com  o sol e a sua pele, muito branca e rosada dava-lhe um toque cristal. Para além dos dedos finos e longilíneos, a sua figura era magra e esbelta. O seu olhar, de um verde eletrizante com mel, fazia qualquer um mergulhar como uma praia quente numa noite de luar.

Havia dias que se expressavam no cansaço do seu rosto, nas ossadas de um corpo tropego. Ainda assim, delicada e leve como uma borboleta deixava um rasto de empatia pelo ar.

Vivia com a tia Lurdes, uma mulher de princípios firmes. A mãe falecera cedo na sua infância. Ainda se recorda das idas ao parque e dos cafonés na nuca antes de adormecer, mas são ideias vagas que ela própria não tem a certeza se são verdade ou pura ilusão. Do seu pai não tem registo, mas era homem do mar, e por isso, foi e não voltou - é o que diz a tia Lurdes, mas Pilar desconfia se alguma vez ela o viu ou conheceu. - "O mar engole os homens, filha... sem tréguas nem descanso."

A tia Lurdes não era uma mulher fácil de levar, autoritária, um pouco gélida e apesar de não parecer, preocupada. A Pilar, nunca lhe faltou nada e ela sabe disso tão bem como sabe estar viva. 

Eram 6 horas, ainda escuras como breu, quando se levantava para ir para a escola todos os dias de que  se lembra. Entrava às 8h mas havia que despertar com os pássaros, dar comida às galinhas, aos coelhos, cozer os ovos para o almoço, fazer a cama impecavelmente, vestir a farda bem engomada e partir para a longa caminhada. A nortada gélida, como a tia Lurdes, indicava-lhe o caminho.

Era o mesmo percurso que fazia todos os dias, com um sorriso pleno, de coração aberto, descia a colina embaraçava-se na floresta que descia e voltava a subir percorria um planalto e lá chegaria à aldeia. A escola era um pequeno edifício junto à igreja e a sua grande janela para o mundo.